sábado, 16 de abril de 2011

O Poder da Ressurreição de Cristo

A oração de Paulo pelos crentes efésios é muito específica. Ele pede a Deus que lhes dê um entendimento e conhecimento mais profundo acerca de Cristo, e seria bom se buscássemos o mesmo para a nossa vida. Isso não é algo que se possa aprender num seminário ou mesmo num estudo bíblico ou na leitura de livros devocionais. O desejo de Paulo era que eles recebessem de Deus, voluntariamente, o “espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele” (Ef 1.17-23).
Especificamente, Paulo ora para que eles conheçam a “suprema grandeza” do poder que Deus queria demonstrar na vida deles. A explicação de Paulo sobre esse assunto é muito esclarecedora. Paulo nos fala sobre esse poder em Filipenses 3. Esse poder era, de fato, o que ele tanto desejava para si mesmo. Ele o chama de “o poder da sua ressurreição” e declarou: “Para o conhecer, e o poder (dynamis) da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte;  para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos. Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus” (Fp 3.10-12).
Será que Paulo estava em dúvida quanto à sua salvação, achando que talvez não estivesse qualificado para a ressurreição dos crentes no Arrebatamento? Dificilmente! Ele está nos dizendo que a Ressurreição não é apenas um evento histórico do qual nos lembramos com satisfação e alegria, mas também o maior acontecimento da história (passada, presente e futura) de todo o cosmos! O maior evento de todos os tempos no universo é também um dos mais difíceis de entender. Nós falamos sobre esse acontecimento de uma forma extremamente trivial, mas ele é o pivô em torno do qual toda a história se articula e que a dividiu para sempre em duas partes. A divisão do tempo não deveria ser apenas a.C. (antes de Cristo) e d.C. (depois de Cristo); deveria ser a.R. (antes da Ressurreição) e d.R. (depois da Ressurreição).
Diante dos telescópios e dos meios tecnológicos de que dispomos hoje para aparentemente esquadrinhar os mais remotos cantos do universo, as palavras de Davi no Salmo 19 assumem um significado ainda mais profundo: “Os céus proclamam a glória de Deus [...]”. A Criação é a maior expressão visível de poder, e nós nos curvamos em espanto e adoração quando pensamos no Deus infinito que está por trás de tudo o que se pode ver. Mas Paulo diz que isso não é nada em comparação com o poder demonstrado na Ressurreição de Jesus Cristo, e esse é o grande poder que Paulo queria que os efésios experimentassem diariamente.
A Ressurreição não é apenas um evento histórico do qual nos lembramos com satisfação e alegria, mas também o maior acontecimento da história (passada, presente e futura) de todo o cosmos!
De fato, Paulo nos diz que a Ressurreição é a maior prova do poder de Deus jamais apresentada e cuja grandeza não pode ser superada. Precisamos entender o porquê dessa afirmação e por que Paulo orou daquela forma. Afinal de contas, “A vida estava nele [em Cristo]” (Jo 1.4). Jesus disse: “[...] tenho poder para a dar [minha vida] e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai” (Jo 10.18, ARC). Então, por que foi necessário um poder tão grande para ressuscitar Cristo dentre os mortos?
Durante sua vida na terra, e antes de sua própria ressurreição, Cristo havia ressuscitado muitos dentre os mortos. Mas aqueles a quem ele ressuscitou, como Lázaro (Jo 11.1-43) e o filho da viúva de Naim (Lc 7.11-16), morreram novamente após alguns dias ou anos para aguardar a ressurreição de todos os crentes no Arrebatamento.
Como o Doador da vida, por intermédio de quem foram criadas todas as coisas (Jo 1.3), poderia ser morto? Temos aqui uma aparente contradição. Foi Cristo mesmo quem disse, a respeito de sua vida: “Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou” (Jo 10.18). Entretanto, Pedro acusa os judeus de terem matado Jesus: “vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos” (At 2.23). Dirigindo-se ao conselho rabínico, Estêvão usa uma linguagem ainda mais forte: “do qual vós agora vos tornastes traidores e assassinos [...]” (At 7.52).
O motivo pelo qual foi necessário usar o maior poder jamais aplicado a fim de ressuscitar a Cristo dentre os mortos só pode estar associado ao tipo de morte que Ele morreu. Deus havia declarado que a penalidade para o pecado é a morte, que é a eterna separação de Deus. Mas será que esse castigo não é forte demais? Adão e Eva foram expulsos do jardim paradisíaco por seu Criador (que os havia colocado ali) por causa de uma infração aparentemente pequena: comer um determinado fruto. Isso é motivo para um castigo eterno?
Nós tratamos o pecado com muito descaso, vendo apenas o ato em si e esquecendo contra quem ele é cometido. O pecado de Adão e Eva não foi apenas comer o fruto proibido. Foi desafiar e se rebelar deliberadamente contra Aquele que havia criado não só a eles, mas a todo o universo. Na nossa perspectiva, o pecado de Davi – adultério, assassinato e mentira – foi muito mais condenável. Mas Davi sabia o que era o pecado: “Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que é mal perante os teus olhos” (Sl 51.4).
Em sua essência, o pecado é uma traição intencional, uma rebelião clara e desafiadora contra o Criador e Governador do universo. Precisamos nos lembrar desse fato. A maioria dos cristãos que, ao serem convencidos pela consciência, caem com o rosto em terra e confessam seus pecados, não está realmente confessando o horror do que fizeram. Não basta se arrepender dos atos praticados. É preciso confessar também que, não importa quão trivial nos pareça o ato que praticamos, o que nós fizemos foi repetir a traição de Adão e Eva contra o Senhor Deus. Se não reconhecermos isso com convicção profunda no coração, a confissão será incompleta.
O pecado tem uma dimensão moral e espiritual que Cristo teve que suportar por todo indivíduo, e nenhum outro poderia fazê-lo.
Agora, começamos a entender por que foi necessária “a suprema grandeza do seu poder” (Ef 1.19) para ressuscitar a Cristo dentre os mortos. O escritor de um hino disse com muita propriedade: “Foi o enorme fardo dos nossos pecados que te deitou no túmulo, ó Senhor da vida”. O que quer dizer isso? Como poderiam os nossos pecados ser lançados sobre o Cristo sem pecado? Isso certamente não foi feito quando Pilatos condenou a Cristo, nem quando os ímpios soldados romanos O açoitaram e O pregaram numa cruz. Contudo, foi isso que o filme antibíblico A Paixão de Cristo (de Mel Gibson) retratou – e o filme foi elogiado por milhares de evangélicos, entre eles centenas de líderes.
O que realmente aconteceu na Cruz não só não poderia ser retratado num filme como, ao ser omitido, foi negado por ele. Isaías escreveu: “Todavia, ao senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado” (Is 53.10). Claramente, o que os homens fizeram com Cristo não teve nada a ver com o Senhor moê-lo e fazer de Sua alma um sacrifício pelo pecado. O pecado tem uma dimensão moral e espiritual que Cristo teve que suportar por todo indivíduo, e  nenhum outro poderia fazê-lo.
O nosso Salvador não tinha que ser apenas perfeitamente sem pecado para poder pagar pelos pecados dos outros – ele tinha que ser infinito. Ninguém, a não ser Deus, poderia satisfazer a justiça dessa forma. Mas a sentença havia sido pronunciada contra a humanidade. Portanto, Deus, apesar de infinito, não poderia pagar essa pena, a não ser que se tornasse totalmente homem sem deixar de ser Deus. Por isso a necessidade do primeiro e único nascimento virginal.
Os ateus alegam que seria injusto um inocente pagar pelos culpados. Isso seria verdade, não fosse por outra dimensão da Cruz. Para os que crêem, Deus considera a morte e a ressurreição de Cristo como se fosse a deles. Todo aquele que crê sofre uma milagrosa transformação interior que foi prometida por Cristo e que Ele chamou de “nascer de novo” (Jo 3.3-16). Isso não é um clichê, é a realidade.
Pilatos não tinha idéia do que estava dizendo quando apresentou Cristo à multidão agitada: “Eis o homem!” Aquele era o homem como Deus queria que fosse. Paulo o chamou de “o segundo homem” e de “o último Adão” (1 Co 15.45,47). Em outras palavras, desde Adão – criado pela mão de Deus no Jardim, sem contaminação – até Jesus, o último Adão – formado no útero de uma virgem, sem contaminação – não havia ninguém de quem se pudesse dizer: “Eis o homem como Deus queria que fosse”.
“O enorme fardo dos nossos pecados”, que teria mantido a humanidade no Lago de Fogo para sempre, poderia ser suportado pelo Ser infinito na Cruz, onde Ele se colocou entre Deus e o Homem. Se a Justiça Infinita não tivesse sido satisfeita através do pagamento integral dos nossos pecados efetuado por Cristo, Ele não poderia ter saído daquele sepulcro.
“Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens. Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem” (1 Coríntios 15.19-20).
A penalidade para o pecado é ser banido eternamente da presença de Deus e de todo o seu universo e lançado no exílio no Lago de Fogo. Esse é o castigo determinado pela Suprema Corte de Deus para a alta traição contra o Criador de todas as coisas. Um dos maiores horrores do Lago de Fogo será o fato de que mesmo naquele lugar de tormento os que odeiam a Deus não conseguirão escapar dEle. Ele estará lá, na consciência dos perdidos, consciências que não poderão mais se esconder atrás de nenhuma desculpa. Não haverá como fugir da verdade que eles rejeitaram e que os atormentará eternamente. Davi afirmou: “Se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás” (Sl 139.8).
Nenhum ser finito poderia pagar a penalidade exigida pela infinita justiça de Deus. Nenhum ser humano que tentasse pagar por seus próprios pecados poderia dizer finalmente, como exclamou Cristo em triunfo na Cruz: “Está consumado! A dívida foi paga”.  Mas o preço tinha que ser pago integralmente. De que outro modo os portões da justiça se abririam?
No Livro de Jó, temos uma noção da verdadeira luta entre Satanás e Deus pelo domínio do Cosmo. “Num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles” (Jó 1.6). Essa narrativa espantosa nos dá uma idéia do que está envolvido na batalha entre Deus e Satanás. É um conflito de proporções cósmicas pelo controle do universo, e o homem é o prêmio que ambos os lados desejam. É uma batalha bem real, cujo objetivo é conquistar o coração e a afeição do homem. Mas é bom lembrar que não há nenhuma garantia de que Deus triunfará em cada caso individual. Com o dom do livre arbítrio, cabe a cada ser humano escolher de que lado ficará nessa batalha.
Os cristãos têm um papel fundamental na derrota final de Satanás: “Eles, pois, o venceram [a antiga serpente, que se chama Diabo e Satanás – Ap 12.9] por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida” (Ap 12.11). Com o amor de Cristo em nosso coração, seguimos o exemplo que Ele mesmo deixou para nós: “Pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente” (1 Pe 2.21-25).
Satanás continua a entrar na presença de Deus desafiadoramente, como fazia na época de Jó. Como podemos ter certeza disso? Pelo fato de que ele ainda acusa os irmãos diante do trono de Deus dia e noite, e continuará fazendo isso até o fim (Ap 12.10). Como já dissemos certa vez, e sempre é bom repetir, Satanás é como um presidente no fim do mandato. Ele ainda pode andar livremente pelos corredores do poder e tem bastante influência por trás dos panos. Ele ainda não foi expulso do céu, mas esse dia está chegando:
“Houve peleja no céu. Miguel e os seus anjos pelejaram contra o dragão. Também pelejaram o dragão e seus anjos; todavia, não prevaleceram; nem mais se achou no céu o lugar deles. E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra, e, com ele, os seus anjos” (Ap 12.7-9).
Como Satanás será expulso no final? Existe um velho hino que expressa com simplicidade e beleza o que a Escritura retrata:
Em fraqueza, como um derrotado, Ele conquistou a coroa da vitória; Permitindo que pisassem nele, colocou todos os nossos inimigos sob seus pés. Ele abateu o poder de Satanás; Feito pecado, derrotou o pecado. Curvou-se ante o sepulcro, destruiu-o também; e, ao morrer, matou a morte.
Satanás não consegue entender como Cristo, com brandura e aparente fraqueza, pôde triunfar sobre ele. Ele fica confuso com tudo que diz respeito à Cruz. Primeiro, ele inspirou Pedro para impedir Cristo de ir para a Cruz: “Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá” (Mt 16.21-22). Sabemos que Satanás inspirou Pedro por causa da resposta de Cristo: “Arreda, Satanás!” Depois, ele inspirou Judas para entregar Jesus aos rabinos para que eles pudessem conseguir Sua crucificação: “Entrou nele Satanás” (Jo 13.27). Até hoje, Satanás não entendeu nada.
“Na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente” (Sl 16.11).
Na minha opinião, Satanás realmente acha que pode sair vencedor dessa batalha pelos corações e mentes da humanidade. E por que não? Ele oferece exatamente aquilo que treinou o homem para cobiçar: riqueza, bens, prazer hedonista, sexo livre, popularidade, fama, drogas e álcool em abundância, satisfação de todos os seus desejos sensuais. Mas, apesar disso, multidões preferem seguir a Cristo, embora Ele ofereça o ódio e a rejeição do mundo, com perseguição e sofrimento – mas também a eternidade em sua presença, onde há felicidade verdadeira: “Na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente” (Sl 16.11).
E o que acontece com os que fazem a escolha errada e preferem juntar-se a Satanás em sua traição? Deus não tem prazer em castigar os perversos (Ez 33.11), mas a punição de cada um é de acordo com seu crime. Quando lemos o que os líderes ateus dizem a respeito de Deus em flagrante e desafiadora rebeldia, temos certeza de que eles arrancariam Deus de Seu trono se pudessem. Eles odeiam a Deus. Sem dúvida, o tormento eterno no Lago de Fogo por causa de sua traição será a colheita daquilo que eles mesmos semearam.
Veja o que disse Richard Dawkins, líder do movimento do Novo Ateísmo, num debate com John Lennox, um cristão fervoroso e também professor de Oxford, cientista com dois Ph.D.s e que, em seu comentário final, deu testemunho de sua fé em Cristo e na ressurreição de nosso Senhor:
“Sim, bem, esse pedacinho final” – disse Dawkins, com os lábios encurvados de desprezo, a voz gotejando veneno – “entrega o jogo todo, não? Toda aquela história de ciência e física... tudo isso é muito grandioso e maravilhoso, e então, de repente, voltamos à ressurreição de Jesus. Isso é tão insignificante, tão trivial, tão local, tão sem imaginação –  tão indigno do universo”.
Mas, para Deus, a Ressurreição foi a maior demonstração de Sua majestade e poder. Que lamentável exibição do ódio mortal que corrói Dawkins! Esse pagão, que obviamente adora a criação ao invés do Criador (Rm 1.21-23), está espumando de raiva. Essa manifestação de seu ódio a Deus vai zombar dele eternamente (Pv 1.20-33), enquanto os céus ressoarão com o eterno mas sempre renovado hino de louvor a Deus e ao Cordeiro: “Digno é o Cordeiro que foi morto de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor”. (The Berean Call - http://www.chamada.com.br)
Publicado anteriormente na revista Chamada da Meia-Noite, abril de 2009.

domingo, 10 de abril de 2011

PRESÍDIOS DA DITADURA

Publicado no Farol da Democracia, pelo Doutor Heitor de Paola, para os cinícos que criticam o Período Militar.




 

 
PRESÍDIOS DO REGIME MILITAR
Falem o que quiserem, mas os presídios da época da ditadura militar eram muito bons. Existem comprovações irrefutáveis que, eles sim, recuperavam presos e
deveriam servir de exemplo para o mundo. Nenhum país e nenhum modelo prisional conseguiu reabilitação igual. Orgulho brasileiro!   ENTRARAM:

GUERRILHEIROS, TORTURADORES, FRAUDADORES, LADRÕES, ASSASSINOS E SEQÜESTRADORES

E SAÍRAM:


 GOVERNADORES, MINISTROS, PREFEITOS, DEPUTADOS, SENADORES, VEREADORES e DOIS PRESIDENTES DA REPÚBLICA..


Surpreender-se, um mandamento divino



Um texto Maravilhoso, profundo que merece ser lido com atenção. Parabéns, minha humilde homenagem!

Antonio Carlos Coelho

(ilustrações Jubal S Dohms)


Surpreender-se a si, aí está a questão
Uma amiga contou-me que estava conflitada. Sua vida tinha tomado rumos inesperados. Teve que tomar decisões de ordem pessoal, familiar e profissional que jamais imaginara. Surgiram problemas com os filhos, já adultos e encaminhados, teve necessidade de buscar up-grade profissional, e outras coisas mais, não menos complicadas. Para quem já tinha ligado o piloto automático da vida, essas novas situações a colocaram em conflitos que envolviam questões de princípios morais, religiosos. Agora ela teria que absorver, de uma hora para outra, os impactos dos fatos. Teria que refazer seus conceitos que pareciam tão sólidos, suficientes para explicar e sustentar as situações da vida.

Ora, a minha amiga não é a única pessoa que se encontra nessa situação. Acredito que muitos organizam a sua vida, passam um bom tempo vivendo o previsível e o seguro. Imaginam estarem definidos em suas carreiras e na vida familiar quando, de repente, acontecem coisas que exigem uma ruptura e conseqüente revisão de valores. São problemas de diversas ordens, que em cada caso, a cada pessoa, se manifestam em diferentes proporções. Tomar uma posição diante deles pode, muitas vezes, contrariar princípios, conceitos e valores que até então pareciam inquestionáveis.
Certa vez o Rabino Sami, da comunidade judaica de Curitiba, em sua pregação, contou uma história: Havia, há muito tempo, um rei que tinha um costume muito peculiar. Ele conduzia cada um dos seus prisioneiros a um salão do palácio real. Nesse salão havia um arqueiro com a flecha pronta para ser lançada contra o prisioneiro. Do outro lado havia uma porta muito grande e escura, com caveiras e dragões entalhados. Ainda, para ficar mais aterrorizante, a porta estava manchada com sangue. Ao prisioneiro eram dadas duas opções: a porta ou a flecha.

Estava bem claro, para o prisioneiro, que se escolhesse a flecha teria a morte certa, poderia até prever a dor que sentiria caso a morte não fosse instantânea, mas tinha certeza do seu destino. Já escolher sair pela sinistra porta, nada estava claro, era um grande risco. Ela era assustadora e sugeria ser a porta do inferno. Dado um tempo para a tomada de decisão, o rei, ordena ao prisioneiro que escolha: tomar o rumo da porta ou ser atingido pela mortal seta. O prisioneiro escolhe ser atingido pelo arqueiro. Opta conscientemente pela morte.

Passados alguns dias, o faxineiro do palácio foi fazer a limpeza do salão. Ao limpar próximo à porta acabou abrindo-a. Ela nem estava trancada. Curioso, vai olhar, e o que vê não condiz com o que todos pensavam: além daquela aterrorizante passagem havia um belo jardim, com fontes, pássaros, árvores frutíferas. Parecia o paraíso. A aparência da porta não condizia com o que havia além dela.

Quando temos que fazer alguma escolha, daquelas mais sérias, que envolvem situações que possam ter grandes conseqüências, na maioria das vezes, optamos pelo conhecido, pelo previsível, mesmo sabendo não ser o ideal, é o que nos permite uma antevisão do resultado das nossas decisões. Tememos ousar, transgredir a regra, errar e sofrer censura. Temos medo do descrédito e também não queremos abandonar valores que nos foram fundamentais, que constituem a nossa personalidade e que nos orientaram nas opções mais significativas.

Como o prisioneiro da história, somos levados ao salão e, diante da necessidade de escolha, preferimos pelo conhecido. Preferimos enfrentar a dor prevista da flecha e a sua conseqüência fatal do que arriscar pela porta que nos aparenta traiçoeira.

Lembro dos homens da Bíblia. Os grandes sempre optaram pela horrenda porta. Preferiram correr o risco. Preferiram romper com o esperado, com o destino fatal da repetição e da regra tida como natural da vida.

Abraão, por exemplo, deveria dar continuidade às tarefas e ao modo de vida dos seus pais, no entanto, preferiu enfrentar o desconhecido. A história bíblica não nos conta os motivos da sua opção. Fala-nos de uma "ordem divina", mas podemos imaginar o quanto foi sofrido para ele tomar a decisão de partir, largar casa e parentes, pegar o rumo de uma terra que não sabia nem o endereço. E Abraão partiu, nos diz a Bíblia. Esse partir consiste em transgredir o rumo natural da vida. Esse transgredir, em muitas das vezes, consiste no obter o novo, o surpreendente. Consiste em encontrar a integridade própria.

A ordem divina que fez com que Abraão tomasse a decisão de partir, foi: "vai para ti mesmo" (no texto original). Ora, vai para ti mesmo, é buscar-se a si, buscar a vida que possa completar cada pessoa. Essa é a ordem divina para todos nós. O cumprimento dessa ordem é exigente. É preciso ter coragem. É preciso escapar da flecha do arqueiro e enfrentar a porta por mais tenebrosa que nos pareça.

Jacó, o terceiro patriarca, enganou seu irmão. Inverteu a ordem da primogenitura. Por isso precisou fugir, escapar da morte prometida, mergulhar em terras estranhas. Lutou com D'us. Lutou com o mais forte, com o intocável, o inquestionável. E, se assim, não fizesse, seria ele o patriarca de uma grande família?

Moisés, com quarenta anos, revoltou-se com a injustiça. Foi obrigado a abandonar a casa real do Egito e a deixar para trás a vida cômoda e próspera dos príncipes do Nilo. Teve que encarar o deserto, o nada, o desolamento, a solidão, o abandono. O príncipe tornou-se pastor das cabras do seu rico sogro. De nobre a pastor de cabras, o que teria passado na cabeça de Moisés? Mas foi ele, o ex-príncipe que certamente escandalizou a corte pelos seus atos, que se tornou libertador do seu povo. Moisés tornou-se grande, abençoado entre os homens, porque optou pela passagem escura da vida. Porque seguiu a ordem divina dada ao seu antepassado Abraão: vai para ti mesmo. Moisés, ao longo da sua vida, se fez completo.
Muitas vezes fazemos coisas surpreendentes, e somos admirados por isso. No entanto, surpreendemos aos outros e não a nós mesmos. Temos consciência de que não fizemos nada mais do que a contingência nos permitia. Surpreender-se a si, aí está a questão. Abraão e Moisés certamente surpreenderam-se a si com suas opções, com a coragem de romper a ordem prevista da vida. É natural que queiramos escapar dos conflitos. Eles nos importunam com suas exigências e oferecem obstáculos que preferiríamos não ter que ultrapassá-los. Como minha amiga, preferiríamos manter a ordem natural da vida, no entanto, os conflitos apontam para uma nova oportunidade. Talvez, através deles, consigamos nos surpreender a nós mesmos. Talvez no conflito esteja a voz divina nos dizendo: vai para ti mesmo.

A difícil transição das promessas para a vida real

Neste início de governo, quase tudo o que Dilma Rousseff prometeu reiteradamente durante a campanha eleitoral permanece no discurso

Branca Nunes, Bruno Abbud, Felipe Moraes
Dilma Rousseff durante cerimônia para promoção de oficiais das Forças Armadas no Palácio do Planalto, Brasília Dilma Rousseff durante cerimônia para promoção de oficiais das Forças Armadas no Palácio do Planalto, Brasília (Evaristo Sá/AFP)
Dilma Rousseff prometeu construir 6 mil creches e pré-escolas até o fim do mandato. Se quiser materializar a promessa, terá de construir uma creche a cada 5 horas e 27 minutos.
Ela já recebeu Barack Obama, preencheu a vaga aberta há 6 meses no Supremo Tribunal Federal, enfrentou uma tragédia que deixou quase mil mortos e uma multidão de flagelados na Região Serrana do Rio de Janeiro, conseguiu uma vitória de peso no Congresso ao aprovar o salário mínimo de 545 reais, participou de programas matinais de culinária na televisão e chegou aos 100 primeiros dias no comando do Palácio do Planalto com 56% de aprovação nas pesquisas. Mas o balanço de pouco mais de três meses do governo Dilma Rousseff confirma que cumprir promessas de campanha é bem mais complicado do que discorrer sobre elas num palanque. Das promessas cumpridas integralmente, destaca-se a distribuição de remédios gratuitos para diabéticos e hipertensos. Outras começaram, lentamente, a sair do papel. O déficit, entretanto, supera o saldo.

Ao longo da temporada eleitoral, Dilma prometeu reiteradamente construir 6 mil creches e pré-escolas até o fim do mandato. Em 100 dias, inaugurou 54 unidades. Faltam 5.946. Se quiser materializar a promessa, terá de construir uma creche a cada 5 horas e 27 minutos (ver infográfico). Os projetos inviáveis não param por aí. Dilma garantiu que entregaria seis mil quadras poliesportivas, ou uma a cada 5 horas e meia – descontados os 100 primeiros dias, já que nenhuma quadra foi entregue até agora –, 2.883 postos de polícia comunitária (um a cada 12 horas), 500 Unidades de Pronto Atendimento (uma a cada dois dias) e 8.600 unidades básicas de saúde (uma a cada 3 horas e meia).

Na área da saúde, Dilma lançou no fim de março, em Belo Horizonte, a Rede Cegonha, que dá prioridade ao atendimento de gestantes e bebês na rede pública de saúde, e anunciou, num discurso em Manaus, que 4,5 bilhões de seriam destinados ao diagnóstico, prevenção, tratamento dos cânceres de mama e colo de útero reais – 1,15 bilhão de reais já neste primeiro ano. Foram duas promessas de campanha.

Embora Dilma tenha garantido que não faria ajuste fiscal – “Não vou fazer reajuste fiscal em hipótese alguma”, disse em 23 de agosto de 2010 – o governo cortou 50 bilhões de reais do Orçamento. Desse total, 5,1 bilhões contemplariam a segunda etapa do programa Minha Casa, Minha Vida. Ignorou-se, assim, a promessa de que as obras do Programa de Aceleração do Crescimento não seriam afetadas. A candidata prometeu 2 milhões de moradias equipadas com eletrodomésticos e móveis. Como nada foi feito, a presidente terá de contratar 1.470 casas por dia até o fim do mandato. O corte no Orçamento também adiou a compra dos 36 caças negociados por Lula desde 2007, o que deixará a ideia de reequipar as Forças Armadas para os próximos 1.360 dias de governo.

Outro sonho revogado foi a completa erradicação da miséria, prometida durante toda a campanha e reafirmada no discurso de posse. “Posso não conseguir acabar com a miséria nos meus quatro anos, mas eu vou insistir tanto nisso, que esse objetivo vai ficar selado nas nossas consciências”, voltou atrás em 28 de março. Outras ousadias incluídas no programa eleitoral são a de acabar com o analfabetismo – o que significa alfabetizar 9.008 pessoas por dia – e levar internet de banda larga a 49.046.490 domicílios (36.063 a cada 24 horas).

Maioria no Congresso
O preço pago por uma maioria consistente no Congresso, que permitiu a aprovação sem sobressaltos do salário mínimo de 545 reais, comprometeu outros projetos de Dilma. A candidata afirmou que privilegiaria nomeações técnicas, substituindo indicações políticas pela meritocracia. No primeiro escalão, entretanto, existem excentricidades como Pedro Novais, ministro do Turismo. Deputado do baixo clero, o maranhense octogenário é, sobretudo, afilhado político de José Sarney.

A derrota nas urnas transformou-se em critério para o preenchimento de cargos. Aloizio Mercadante fracassou na disputa pelo governo de São Paulo e ganhou o Ministério da Ciência e Tecnologia. O mineiro Fernando Pimentel ficou fora do Senado, mas levou o Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Vencida nas urnas em Santa Catarina, Ideli Salvatti recebeu o Ministério da Pesca. E a vice-presidência da Caixa Econômica foi o prêmio de consolação para Geddel Vieira Lima, 3º colocado na eleição estadual baiana.

“O ministério de Dilma é cinzento, não sabe gerir”, observa o historiador Marco Antonio Villa. “Ela sequer se reuniu com todos os ministros nesses 100 dias. É politicamente ruim, que não consegue administrar o cotidiano do país, tampouco seu futuro”.

Dos 37 ministros, Dilma ainda se não encontrou em particular com seis deles. Segundo o jornal O Globo, Jorge Hage (CGU), Pedro Novais, Mário Negromonte (Cidades), Garibaldi Alves Filho (Previdência), Wagner Rossi (Agricultura) e Moreira Franco (Assuntos Estratégicos) não tiveram uma conversa reservada com a presidente. À constelação de gabinetes – a China se limita a 27 ministérios e os Estados Unidos, a 15 – serão acrescentados outros três. Dilma anunciou a criação das secretarias de Irrigação e de Aviação Civil e do Ministério da Micro e Pequena Empresa. O terceiro atende a uma promessa de campanha.

Para Villa, foi a pior idéia em 100 dias. “Isso só aumenta os gastos e pulveriza os mecanismos de decisão”, argumenta o historiador. “Criar mais ministérios é uma desconsideração com a crítica ao inchamento da máquina pública e ao aumento de gastos”.

Trem-bala e outras heranças
Como o PAC, o trem-bala é outra obsessão de Dilma Rousseff desde os tempos de ministra chefe da Casa-Civil. Durante a campanha, insatisfeita com trajeto que ligaria Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro – que Lula anunciou para 2010 – Dilma estendeu os trilhos ao Triângulo Mineiro e multiplicou o número de estações: "A obra deve começar em 2011 e, além desse trem, o governo estuda dois novos trechos: de Campinas a Belo Horizonte e de Campinas ao Triângulo Mineiro", afirmou em 1º de julho do ano passado.

Nesta terça-feira, a Câmara dos Deputados aprovou a medida provisória que autoriza a criação da Empresa do Trem de Alta Velocidade (ETAV) e o empréstimo de até R$ 20 bilhões do BNDES ao consórcio vencedor da licitação. Mas já se sabe que o trem-bala não ficará pronto antes de 2016. Depois dos Jogos Olímpicos do Rio.
Para consumar outras promessas do antecessor, Dilma terá de ampliar três aeroportos – o Galeão, no Rio de Janeiro, o Afonso Pena, em Curitiba, e Guarulhos, em São Paulo – e incorporar uma nova pista ao aeroporto de Confins, em Belo Horizonte. Também anunciou a construção de refinarias cujos alicerces já foram fincados pelo governo Lula. É o caso da Clara Camarão, no Rio Grande do Norte, iniciada em 2009, e da Premium I, no Maranhão (2010). O começo das obras da refinaria Premium II, em Caucaia, no Ceará, está previsto para setembro. Deverá ser inaugurada em 2017. A segunda fase do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro só sairá do papel em 2018.

Ainda mais ousada que o padrinho, Dilma prometeu criar em quatro anos a mesma quantidade de empregos que Lula diz ter criado em oito: 15 milhões. Segundo o Ministério do Trabalho, foram 448.742 novos postos de trabalho com carteira assinada em janeiro e fevereiro desde ano. Faltam 14.551.258.

Política Externa e economia
No campo da política externa, o silêncio cúmplice de Dilma foi substituído por atitudes que Lula certamente não adotaria. No governo anterior, o Brasil se absteve nas votações que condenaram o Irã por violações aos direitos humanos. Há três semanas, o embaixador brasileiro votou a favor do envio de um relator da ONU para apurar denúncias envolvendo o regime islâmico fundamentalista. As demonstrações de simpatia por ditadores africanos e os afagos em Hugo Chávez, Fidel e Raul Castro também foram temporariamente suspensos.

Apesar dos sobressaltos provocados por aumentos de preço, o balanço é positivo na área econômica. Marcelo Fonseca, economista da gestora M. Safra, acredita que Dilma está determinada a impedir a volta da inflação.

Desde 1985, com o fim do regime autoritário, os presidentes têm agido com prudência nessa etapa inicial. A exceção foi Fernando Collor, que não esperou sequer 24 horas para confiscar as cadernetas de poupança com mais de 50.000 cruzeiros (aproximadamente 17.000 reais em valores de hoje). Os 100 primeiros dias são, tradicionalmente, um período de trégua concedido ao chefe de governo tanto pelos opositores, quanto pelos governistas. A fase mais difícil começa agora.
info Dilma 100 dias

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Armas e liberdade

Assaltantes, estupradores e assassinos sabem que em paraísos desarmamentistas - isto é, qualquer lugar em que saibam que as potenciais vítimas estão desarmadas - os cidadãos estão totalmente indefesos contra eles.
Recentemente aconteceu algo em Buffalo, Nova York, que contradiz a propaganda daqueles que apóiam o "controle de armas" - isto é, o controle de cidadãos cumpridores da lei que desejam apenas ter uma arma para se proteger dos vários elementos nefastos deste mundo. Um cidadão de fato usou uma arma, uma espingarda, para defender sua casa e sua família de invasores armados. E, de acordo com a manchete, ele já havia sido vítima de outras invasões domiciliares.
Não, sua arma não lhe foi tomada e usada contra ele - essa seria a conseqüência inevitável de se possuir uma arma, dizem os defensores do desarmamento. Não, sua arma também não foi roubada. Não, ele não teve tempo de esperar pela polícia, não obstante esta tivesse chegado minutos depois, tendo também atirado nos invasores, ferindo um deles. Sim, ele foi capaz de pegar sua arma a tempo. Sim, ele apontou, mirou e acertou os alvos maléficos. De acordo com a propaganda desarmamentista, as pessoas raramente - quase nunca - usam armas para a auto-defesa.

O desarmamento é uma daquelas idéias que, na superfície, parecem fazer sentido; uma idéia a qual as pessoas sensatas inicialmente estão inclinadas a aceitar; uma idéia que parece oferecer uma solução fácil para um problema difícil. E esse é o problema com o controle de armas. Não passa de uma auto-ilusão, um pensamento baseado no desejo; é simplista, ingênuo e até mesmo infantil. É um pensamento tipicamente esquerdista: achar que problemas sociais podem ser resolvidos colocando-se palavras num papel e transformando-as em estatutos federais e estaduais.

Sempre que você ouvir que esse ou aquele tipo de arma foi banido, lembre-se que palavras escritas num papel jamais mudaram a natureza humana. Existem pessoas ruins lá fora que irão se aproveitar das pessoas boas. Elas não serão impedidas por palavras em um papel, seja onde for. As pessoas boas, por outro lado, desejosas de obedecer a lei, serão. E é por isso que assaltantes, estupradores e assassinos sabem que em paraísos desarmamentistas - isto é, qualquer lugar em que saibam que as potenciais vítimas estão desarmadas - os cidadãos estão totalmente indefesos contra eles.
Nos EUA, em particular, acontece um fenômeno interessante. Sempre que o congresso ameaça aprovar novas regulamentações anti-armas, o povo americano responde comprando e estocando a maior quantidade de armas possível.
Em 1989, o congresso aprovou restrições sobre as chamadas "armas de ataque" (assault weapons), tais como a Colt AR-15, a H&K G36E, a TEC-9, todos os AK-47s, e as Uzis. Esse fato provocou uma explosão na venda de armas. Após uma breve folga da máquina legislativa, surgiu a Brady Bill em 1993, um projeto de lei que impunha a checagem do histórico do comprador. Os políticos alegaram estar apenas atrás dos criminosos. Mas o principal efeito da lei foi o de convencer as pessoas de que o governo federal estava mesmo era determinado em desarmar o público.
Os políticos, é claro, sempre dizem que estão atrás apenas dos criminosos, e não de caçadores e de pessoas que apenas desejam a auto-proteção. Mas, por definição, os criminosos não ligam muito para regulações. Restrições legais sobre a venda de armas só servem para fazer com que as pessoas que escrupulosamente seguem a lei não consigam se defender daqueles que não a seguem.
Esse ponto pode ser demasiado complicado para os políticos entenderem, mas as pessoas comuns entendem. Após a aprovação da Brady Bill houve mais uma explosão na venda de armas, com a população aumentando seus estoques, antecipando-se a mais regulamentações futuras.
As percepções da população provaram-se certeiras. Sem perder tempo, os federais baniram a fabricação doméstica de armas de estilo militar e de pentes com capacidade para mais de 10 projéteis. O resultado foi o maior tiro pela culatra da história das regulamentações. O limitado número de "armas de ataque" ainda em circulação passou a ser vendido pelo dobro do preço pré-banimento. E como era necessário ter mais balas para poder se igualar ao poder de fogo antigo, os fabricantes de munições passaram a desfrutar de lucros recordes, de acordo com dados reunidos pelo Wall Street Journal.
E, por fim, o que levou o mercado à velocidade total de operação foi a ameaça de que os fabricantes de armas seriam levados à falência por conta de ações judiciais. As pessoas viram o que os tribunais fizeram com as empresas de tabaco e o que aconteceu com os preços do cigarro como conseqüência. Ao contrário dos cigarros, armas não são perecíveis, e assim as pessoas perceberam que poderiam - aliás, deveriam - começar a estocar o mais rápido possível, antes que os juízes fizessem com os fabricantes de armas o mesmo que fizeram com os fabricantes de cigarro.
Fanáticos anti-armas viram toda essa estocagem como uma catástrofe, uma vez que sua meta era o desarmamento completo da população. Mas eles estavam em um dilema. Costurar o processo legislativo para implantar o desarmamento completo toma mais tempo do que os períodos de espera e as barreiras regulatórias já aprovadas e transformadas em lei. As janelas de liberdade existentes permitiram às pessoas desafiar as intenções dos desarmamentistas enquanto ainda havia tempo.
A estocagem que passou a ocorrer em todo o país provavelmente animou até mesmo as pessoas que não tinham interesse em ter uma arma. Isso porque uma posse de armas amplamente difundida por toda a sociedade confere aquilo que os economistas chamam de "externalidades positivas" sobre as pessoas que não planejam ter armas. Por exemplo, mesmo que você não possua uma arma, ainda assim você se beneficiará da percepção de que você ainda pode vir a ter uma, uma percepção que só vai durar enquanto a realidade da posse difusa de armas continuar existindo. O temor de que as pessoas estejam dispostas a reagir é o que mantém os criminosos acuados.
Uma literatura maciça e detalhada já comprovou, seguidamente, que quanto mais armas uma comunidade possui, menor é a criminalidade que essa comunidade tem de aturar. Os dados são tão devastadores que nenhuma pessoa sensata poderia negá-los. (A "planilha de fatos das armas de fogo" deveria estar na lista de favoritos de cada ser pensante). Por que, então, o lobby desarmamentista continua a dizer que as restrições às armas são a chave para diminuir a criminalidade?
Um livro altamente elogiado pelos desarmamentistas - o Arming America: The Origins of a National Gun Culture, escrito por Michael A. Bellesiles, professor da Emory University - foi inteiramente desacreditado por ser baseado em fatos fajutos - para não dizer fraudulentos -, e o autor foi forçado a se demitir de seu posto. Bellesiles tentou contestar a sabedoria convencional e argumentou que no período colonial os americanos tinham poucas armas e muitas delas não funcionavam. (Joe Stromberg já refeutou devidamente tal asserção).
Ele parecia não estar ciente de que a Revolução Americana foi originada por uma tentativa de desarmamentistas britânicos de confiscar armas americanas em Concord. Na batalha de Lexington e Concord, esses americanos supostamente mal armados de alguma forma conseguiram infligir 273 baixas no mais bem treinado exército do mundo, os Redcoats.
Um bom antídoto para o livro de Bellesiles é o livro Guns and Violence, escrito por Joyce Lee Malcolm, professor de história do Bentley College. Malcolm argumenta que na Inglaterra a taxa de crimes violentos vinha declinando por séculos à medida que mais armas iam se tornando disponíveis. Foi só começarem a aprovar leis anti-armas e a taxa começou a subir.
Já um estudo do economista John R. Lott, Jr. - Ph.D. e autor dos livros Mais Armas, Menos Crimes e O Preconceito Contra as Armas - mostra que em 1985 apenas oito estados tinham leis que permitiam às pessoas andarem armadas livremente - as leis permitiam que uma pessoa automaticamente conseguisse uma licença, desde que ela tivesse seu histórico aprovado e completasse um curso de treinamento. Atualmente existem quarenta estados que apresentam alguma versão dessas leis. O exame que Lott fez dos dados mostrou que "de 1977 a 1999, os estados que adotaram leis que permitiam o porte livre de armas apresentaram uma queda de 60% nos ataques contra indivíduos e uma queda de 78% nas mortes em conseqüência de tais ataques".
Já é hora de a orientação ideológica desses confiscadores de armas ser examinada mais minuciosamente. Observe que a teoria deles sobre a posse de armas não aparece isolada; ela é parte de um pacote maior, um pacote de crenças políticas sobre o papel do governo na sociedade. Quase sem exceções, eles defendem toda a agenda estatista típica do politicamente correto. O que eles querem não é uma sociedade desarmada, mas uma sociedade onde o governo tem o monopólio da posse de armas.
O que nos leva ao dia 11 de setembro de 2001. Nesse dia, descobrimos que todo o aparato de $400 bilhões do governo federal não foi capaz de nos proteger contra um catastrófico ataque terrorista, ao passo que uns poucos revólveres nas cabines de comando dos aviões, o que há muito havia sido desencorajado pela polícia federal, poderiam ter salvado o dia. E, apesar disso, a idéia de que pilotos tenham permissão para estar armados contra invasores ainda é controversa, após quase 7 anos e duas guerras sangrentas que já mataram muitos milhares.
O propósito principal da Segunda Emenda é fornecer a todos os cidadãos os meios para se defenderem contra a tirania governamental. No século XX, muitos governos por todo o mundo mataram milhões de seus próprios cidadãos, que estavam desarmados espontânea ou compulsoriamente. Isso ocorreu na União Soviética, na Alemanha Nazista, na China Comunista, na China Nacionalista, no Camboja, na Coréia do Norte, em Cuba e em vários outros lugares.
Nesse quesito, devemos ser muito gratos ao que restou do livre mercado de armas, que tornou possível às pessoas responderem à ameaça de regulamentação de armas comprando e estocando. Se realmente valorizamos a liberdade e a segurança, precisamos não de mais restrições sobre a propriedade privada, mas da revogação das restrições existentes. E com os recentes eventos no Iraque, já deveria estar claro que o congresso precisa aprovar restrições muito severas é na liberdade de burocratas e políticos belicistas adquirirem e usarem armas.
O perigo para a existência de uma sociedade livre não está nas armas em posse dos cidadãos, mas em um governo que é livre para agir, especialmente um que está mais bem armado do que o povo. Uma sociedade armada é uma sociedade autônoma e independente, assim como um povo desarmado está vulnerável a poderes arbitrários de todo tipo.
Cidadãos armados resultam em menos crime e mais segurança, e ainda faz com que o governo seja constantemente lembrado de que seus burocratas não são os únicos com poderes.
E é exatamente por isso que a matança horrível e sem sentido ocorrida em abril de 2007 na Universidade de Virginia Tech serviu para reforçar esse sentimento inquietante ao qual muitos americanos se acostumaram após o 11 de setembro: o sentimento de que o governo não pode protegê-los. Não importa quantas leis sejam aprovadas, não importa quantos policiais ou agentes federais sejam colocados nas ruas, um indivíduo ou um grupo de indivíduos decididos ainda podem causar grandes danos. Talvez o único bem que ainda pode advir dessa matança terrível é um reforço na compreensão de que nós como indivíduos é que somos responsáveis por nossa segurança e pela segurança das nossas famílias.
Apesar de o estado da Virginia de fato permitir que indivíduos possam portar armas ocultas caso eles tenham antes obtido uma licença, os campi universitários do estado estão especificamente excluídos dessa lei. A Virginia Tech, assim como todas as outras faculdades da Virginia, são zonas livres de armas, ao menos para civis. E como pudemos ver, não importou quantas armas a polícia tinha. Apenas os indivíduos presentes na cena poderiam ter impedido ou ao menos diminuído a tragédia. A proibição de armas no campus fez com que os estudantes da Virginia Tech ficassem menos seguros, e não mais.
Você se sentiria seguro se pusessem um aviso na frente da sua casa dizendo: "Essa casa é uma zona livre de armas, seus moradores NÃO possuem arma de fogo"? Cidadãos cumpridores da lei poderiam ficar satisfeitos com tal aviso, mas para criminosos ele seria um convite irresistível. Aliás, por que será que ninguém entra atirando nas reuniões da National Rifle Association?
Também de acordo com John Lott, antes de 1995 era permitido a professores levar armas para as universidades em vários estados e "a erupção de tiroteios estudantis nas escolas começou em outubro de 1997, na cidade de Pearl, Mississipi, após a proibição".
Já dá pra ouvir a gritaria: "E se um professor for psicótico e decidir atirar nos seus alunos?" Ora, se um professor for emocionalmente instável não há absolutamente nada que o impeça de levar uma arma para a universidade e cometer este ato covarde e patético hoje.
Ademais, se tivéssemos um livre mercado para a educação e se a Segunda Emenda fosse respeitada, aqueles pais que não confiassem em professores armados mandariam seus filhos para escolas livres de armas e aqueles que sentissem que uma escola com professores armados pudesse fornecer um ambiente mais seguro iriam recompensar com seu dinheiro as escolas que oferecessem esse serviço. O treinamento e a avaliação dos professores poderiam ser feitos por instituições do setor privado.
É válido também mencionar que Israel e Tailândia têm sido citados como exemplos de como armas nas escolas podem salvar vidas.
A tragédia da Virgina Tech pode não necessariamente levar a mais controles e regulamentações sobre a venda de armas, mas provavelmente irá levar a mais controle sobre as pessoas. Graças à mídia e a muitos funcionários do governo, os americanos ficaram acostumados a ver o estado como seu protetor e como a solução para todos os problemas. Sempre que algo terrível acontece, principalmente quando se torna notícia nacional, as pessoas reflexivamente exigem que o governo faça alguma coisa. Esse impulso quase sempre leva a leis ruins e à perda de mais liberdade. Isso está em completo desacordo com as melhores tradições americanas, como a auto-confiança e o individualismo austero.
Será que realmente queremos viver em um mundo repleto de postos policiais, câmeras de vigilância e detectores de metal? Será que realmente acreditamos que o governo pode fornecer segurança total? Será que queremos involuntariamente encarcerar todo indivíduo descontente, perturbado ou alienado que tenha fantasias sobre violência? Ou será que podemos aceitar que a liberdade é mais importante do que a ilusão de uma segurança fornecida pelo estado?
É bem possível que o congresso ainda venha a usar esse evento terrível para tentar implementar mais programas obrigatórios de saúde mental. O estado-babá terapêutico só sabe estimular os indivíduos a se enxergarem como vítimas, e a rejeitar qualquer responsabilidade pessoal por seus atos. Certamente existem doenças mentais legítimas, mas é função de médicos e da família, não do governo, diagnosticar e tratar tais doenças.
A liberdade não é definida pela segurança. A liberdade é definida pela capacidade que os cidadãos têm de viver sem interferência governamental. O governo não pode criar um mundo sem risco, e nem nós iríamos querer viver em ambiente tão fictício. Apenas uma sociedade totalitária poderia alegar a segurança absoluta como um ideal válido, porque isso iria requerer um controle total do estado sobre a vida de seus cidadãos. A liberdade só tem sentido se ainda acreditamos nela quando coisas terríveis acontecem e um falso manto de segurança governamental nos acena.



Lew Rockwell
é o presidente do Ludwig von Mises Institute, em Auburn, Alabama, editor do website LewRockwell.com, e autor dos livros Speaking of Liberty e The Left, the Right, and the State.

James Ostrowski
é advogado e mora em Buffalo, New York.

Ron Paul
é um congressista republicano do Texas e foi candidato à nomeação para as eleições presidenciais de 2008.
Publicado no site do Instituto Ludwig Von Mises Brasil.
Tradução: Leandro Augusto Gomes Roque

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Reavaliando o Relatório Goldstone sobre Israel e crimes de guerra Por Richard Goldstone


Sabemos hoje muito mais sobre o que aconteceu na guerra de Gaza de 2008-09 do que sabíamos quando presidi a missão nomeada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU que produziu o que veio a ser conhecido como o Relatório Goldstone. Se eu soubesse então o que sei agora, o Relatório Goldstone teria sido um documento diferente.
O relatório final elaborado pela comissão de especialistas independentes da ONU - presidido pela ex-juíza de Nova York, Mary McGowan Davis - que se seguiu às recomendações do Relatório Goldstone, concluiu que “Israel tem dedicado recursos significativos para investigar mais de 400 denúncias de má conduta operacional em Gaza”, enquanto “as autoridades de fato em Gaza (ou seja, o Hamas) não realizaram qualquer investigação sobre o lançamento de foguetes e morteiros contra Israel".
Nosso relatório encontrou evidências de crimes de guerra em potencial e “possivelmente crimes contra a humanidade” cometidos tanto por Israel como pelo Hamas. Não é preciso dizer que os crimes alegadamente cometidos pelo Hamas foram intencionais - seus foguetes foram propositalmente e indiscriminadamente destinados a alvos civis.
Já as alegações de intencionalidade por parte de Israel foram baseadas em mortes e ferimentos de civis em situações em que a nossa missão de inquérito não tinha provas nas quais podíamos tirar qualquer outra conclusão razoável.
Enquanto as investigações publicadas pelo exército israelense e reconhecidas no relatório da comissão da ONU estabeleceram a validade de alguns incidentes investigados envolvendo soldados, eles também indicam que não havia ordens para visar civis intencionalmente.
Por exemplo, o ataque mais grave em que se focou o Relatório Goldstone foi a morte de cerca de 29 membros da família al-Simouni em sua casa. O bombardeio da casa aparentemente foi conseqüência de uma interpretação equivocada da imagem fornecida por um avião não-tripulado, e um oficial israelense está sob investigação por ter ordenado o ataque. Embora a longa duração deste inquérito seja frustrante, parece que um processo adequado está em andamento, e estou confiante de que, se o oficial for considerado negligente, Israel vai agir de acordo. O objetivo dessas investigações, como eu sempre disse, é garantir a responsabilização por atos impróprios, não julgar de antemão as difíceis decisões tomadas por comandantes no campo de batalha.
Enquanto saúdo as investigações sobre as denúncias de Israel, partilho das preocupações refletidas no relatório de McGowan Davis, de que poucos inquéritos de Israel foram concluídos e acredito que estes processos deveriam ter sido realizados em um fórum público. Embora as evidências apresentadas por Israel desde a publicação do nosso relatório não neguem a trágica perda de vidas civis, lamento que a nossa missão de inquérito não tenha tido acesso a estas justificativas sobre as mortes de civis na Faixa de Gaza, porque elas provavelmente teriam influenciado nossas conclusões sobre intencionalidade e crimes de guerra.
A falta de cooperação de Israel com a nossa investigação significou que não fomos capazes de corroborar quantos dos habitantes de Gaza mortos eram civis e quantos eram combatentes. Os números do exército israelense acabaram sendo semelhantes aos recentemente fornecidos pelo Hamas (apesar de o Hamas ter razão para inflar o número de combatentes mortos).
Como mencionei anteriormente, desde o início eu teria apreciado a cooperação de Israel. O propósito do Relatório Goldstone nunca foi o de provar uma conclusão precipitada contra Israel. Eu inclusive insisti em mudar o mandato original da missão aprovado pelo Conselho de Direitos Humanos, que tinha viés contra Israel. Sempre deixei claro que Israel, como qualquer outra nação soberana, tem o direito e o dever de defender seus cidadãos contra os ataques externos e internos. Algo que não tem sido reconhecido com freqüência suficiente é o fato de que o nosso relatório marcou a primeira vez em que atos ilegais do terrorismo do Hamas foram investigados e condenados pelas Nações Unidas. Eu esperava que nossa investigação em todos os aspectos do conflito em Gaza iniciariam uma nova era de imparcialidade no Conselho de Direitos Humanos da ONU, cuja história de preconceito contra Israel não se pode duvidar.
Fomos acusados de não termos seguidos a normas judiciais. Que fique claro: Nossa missão não foi de modo algum um processo judicial ou mesmo semijudicial. Nós não investigamos condutas criminosas por parte de qualquer indivíduo em Israel, Gaza ou na Cisjordânia. Fizemos nossas recomendações com base nas informações que tínhamos diante de nós, que infelizmente não incluíam quaisquer elementos fornecidos pelo governo israelense. De fato, nossa principal recomendação era que cada parte deveria investigar, de forma transparente e de boa fé, os incidentes referidos no nosso relatório. McGowan Davis concluiu que Israel tem feito isso de forma significativa, e que o Hamas não tem feito nada.
Alguns sugeriram que era um absurdo esperar que o Hamas, uma organização que tem uma política de destruir o Estado de Israel, investigasse o que dissemos que se tratava de graves crimes de guerra. Era minha esperança, mesmo irreal, que o Hamas iria fazê-lo, especialmente tendo Israel conduzido suas próprias investigações. No mínimo, eu esperava que, em face de uma constatação clara de que seus membros estavam cometendo graves crimes de guerra, o Hamas iria reduzir seus ataques. Infelizmente, esse não foi o caso. Centenas de foguetes e morteiros foram dirigidos a alvos civis no sul de Israel. Que poucos israelenses tenham sido comparativamente mortos pelos foguetes ilegais e ataques com morteiros de Gaza em nada minimiza sua criminalidade. O Conselho de Direitos Humanos da ONU deve condenar estes atos abomináveis nos termos mais fortes.
No fim das contas, nosso pedido para que o Hamas promovesse investigações pode ter sido uma iniciativa equivocada. Da mesma forma, o Conselho de Direitos Humanos deveria condenar o recente e indesculpável massacre a sangue frio de um jovem casal de israelenses e de três de seus filhos pequenos em suas camas.
Eu continuo a acreditar na aplicação do Direito Internacional em conflitos prolongados e mortais. Nosso relatório tem levado a muitas “lições aprendidas” e a mudanças de políticas, incluindo a adoção de novos procedimentos da Forças de Defesa de Israel para proteger os civis em caso de guerra urbana e limites ao uso de fósforo branco em áreas civis. A Autoridade Palestina estabeleceu um inquérito independente sobre as nossas alegações de violações dos direitos humanos - assassinatos, tortura e detenções ilegais - perpetradas pelo Fatah na Cisjordânia, especialmente contra membros do Hamas. A maioria de nossas alegações foi confirmada por este inquérito. Lamentavelmente, não houve qualquer esforço por parte do Hamas, em Gaza, para investigar as denúncias de seus crimes de guerra e de crimes contra a humanidade.
Falando de forma simples, as leis que regem conflitos armados aplicam-se a entidades não-estatais, como o Hamas, da mesma forma que a exércitos nacionais. Garantir que entidades não-estatais respeitem estes princípios, e que sejam investigados quando deixem de fazê-lo, é um dos desafios mais importantes da lei dos conflitos armados. Somente se todas as partes envolvidas em conflitos armados obedecerem a essas normas é que seremos capazes de proteger os civis que, não por escolha própria, são apanhados na guerra.

Richard Goldstone, juiz aposentado do Tribunal Constitucional da África do Sul e ex-procurador-geral da Tribunais Penais Internacionais da ONU para a antiga Iugoslávia e Ruanda, presidiu a missão das Nações Unidas sobre o conflito em Gaza.


O que será agora da caça às bruxas contra Israel?

O que será agora da caça às bruxas contra Israel?

Em um extraordinário artigo no Washington Post, Richard Goldstone admite agora que seu infame relatório estava errado. Este inflamou o libelo de sangue de que, na Operação Chumbo Moldado em Gaza (entre o final de 2009 e o início de 2010), Israel havia alvejado civis e possivelmente cometido crimes de guerra contra a humanidade. Agora ele diz que, como resultado do relatório final da comissão de especialistas independentes da ONU e de outras evidências que surgiram desde que seu relatório foi publicado, ele aceita o fato de que
os civis não foram intencionalmente alvejados como uma questão de política,
e mais adiante declara:
Se eu soubesse então o que sei agora, o Relatório Goldstone teria sido um documento diferente.
Que lixo auto-condescendente! Na época, havia amplas evidências, vindas de inúmeras fontes, de que o Hamas estava mentindo sobre o número de civis mortos pelo fogo israelense. Havia amplas evidências de que o Hamas estava deliberadamente colocando civis em perigo. Havia amplas evidências de que o Hamas não opera em cumprimento às leis nem preza os direitos humanos. Havia amplas evidências de que as regras israelenses de engajamento exigiam que as Forças de Defesa de Israel (FDI) evitassem atingir civis sempre que possível. Havia amplas evidências de que Israel sempre investiga alegações de má conduta feitas contra seus soldados e os mantêm responsáveis para responderem segundo os ditames do Estado de Direito. Mesmo assim, Goldstone, tendo aceitado o cálice envenenado do Conselho de Direitos Humanos da ONU para sujeitar Israel a um julgamento encenado, cujo veredito precedeu as evidências (a despeito de seus protestos de que ele modificou essa abominável sentença), escolheu crer na propaganda divulgada pelo Hamas e pelos seus representantes dentre as ONGs, que têm uma longa história de hostilidade malévola contra Israel.
Mesmo agora, em seu pretendido mea culpa, Goldstone não se responsabiliza pela Grande Mentira que ajudou a perpetrar, com conseqüências tão terríveis, adicionado combustível de alta potência à deslegitimação de Israel, apresentado como um pária aos olhos do mundo. Em vez de reconhecer sua responsabilidade, ele coloca a culpa de suas falsas conclusões sobre a recusa de Israel em cooperar com sua investigação.
Portanto, pela segunda vez, ele está, novamente, culpando Israel por sua própria vitimização – primeiro nas mãos do Hamas, e agora nas mãos dele mesmo.
Ridiculamente, ele agora diz que
as alegações da intencionalidade por parte de Israel [contidas em seu relatório] foram baseadas nas mortes e nos ferimentos de civis em situações em que nossa missão de verificar os fatos não possuía evidências nas quais fundamentarmos qualquer outra conclusão razoável.
O protesto de que ele não tinha nenhuma alternativa senão acreditar no Hamas é mesmo surpreendente. O Hamas é uma organização terrorista com um sólido registro de mentiras, distorções e invenções do estilo “Pallywood” como estratégias de batalha agressivas. Israel, a vítima de tais agressões, possui um registro sólido de dizer a verdade. Mesmo assim, Goldstone escolheu crer na versão do Hamas sobre os acontecimentos. E isso não foi tudo. Como ele mesmo diz no Washington Post:
Alguns sugeriram que era um absurdo esperar que o Hamas, uma organização que tem uma política de destruir o Estado de Israel, investigasse o que dissemos que se tratava de graves crimes de guerra. Era minha esperança, mesmo irreal, que o Hamas iria fazê-lo, especialmente tendo Israel conduzido suas próprias investigações. No mínimo, eu esperava que, em face de uma constatação clara de que seus membros estavam cometendo graves crimes de guerra, o Hamas iria reduzir seus ataques. Infelizmente, esse não foi o caso. Centenas de foguetes e morteiros têm sido lançados contra alvos civis no Sul de Israel.
No final das contas, nossa solicitação para que o Hamas promovesse investigações pode ter sido uma iniciativa equivocada. Da mesma forma, o Conselho de Direitos Humanos deveria condenar o recente e indesculpável massacre a sangue frio de um jovem casal de israelenses e de três de seus filhos pequenos em suas camas [em Itamar].
Continuo a acreditar na aplicação do Direito Internacional em conflitos prolongados e mortais. (...) Lamentavelmente, não houve qualquer esforço por parte do Hamas, em Gaza, para investigar as denúncias de seus crimes de guerra e de crimes contra a humanidade.
Dá para acreditar nisso? Ele parece ter esperado que o Hamas, um agressor genocida, se comportasse de maneira civilizada, investigando seus supostos abusos – enquanto ele escolheu interpretar as leis com severidade e condenar exemplarmente sua vítima democrática, Israel. E agora, o que ele vai reconhecer, no máximo, é que esperar que o Hamas agisse corretamente
pode ter sido uma iniciativa equivocada.
Através de sua própria admissão, o homem se revela, na melhor das hipóteses, como um idiota abjeto e, na pior das hipóteses, como um destituído moral e judicialmente. Seu relatório difamou o nome de Israel por se defender contra ataques existenciais; animou seus atacantes a engrenarem seus ataques violentos sabendo que a comunidade internacional agora tinha confirmações oficiais de que Israel estava moralmente no ostracismo; colocou civis israelenses, juntamente com a própria sobrevivência de Israel, em risco cada vez maior, ajudando a deslegitimar Israel como um pária global; e atiçou a pressão sobre Israel para não defender seus civis por meios militares contra os ataques que vêm aumentando incansavelmente em audácia e escopo.
Todavia, independentemente de suas manifestas inadequações morais e intelectuais, a retratação de Goldstone provoca conseqüências inescapáveis. Todos aqueles que usaram o relatório de Goldstone como base para a deslegitimação de Israel agora também se revelam como tendo endossado uma das piores falsidades internacionais oficialmente sancionadas da história. Todos os seus ataques contra Israel, que se apoiavam no Relatório Goldstone, agora se mostram igualmente infundados e desacreditados. Quaisquer ataques futuros que usem esse relatório como autoridade serão obviamente falsos e mal-intencionados. A ONU deveria anular o relatório Goldstone declarando-o inválido. Qualquer atitude menor que essa será notadamente uma caricatura de justiça.
Mas, logicamente, como todos os libelos de sangue anteriores contra os judeus, não existe antídoto para o veneno que foi injetado na corrente sanguínea global. O dano está feito – e nenhuma quantidade de retratações auto-condescendentes de Richard Goldstone desfará o terrível mal que ele fez. (Melanie Phillips – www.spectator.co.uk - http://www.beth-shalom.com.br)
Melanie Phillips é escritora e jornalista britânica, bem conhecida por seus artigos controversos acerca de temas sociais e políticos. Agraciada com o Prêmio Orwell de jornalismo em 1996, é autora de All Must Have Prizes, Londonistan e vários outros livros.
Considerada conservadora por seus oponentes, ela mesma prefere considerar-se uma defensora dos autênticos valores liberais, contra a tentativa de destruir a cultura ocidental a partir de dentro.
Para ler o artigo de Richard Goldstone (traduzido para o Português), clique aqui.