O que a foto de Dilma sugere, revela e esconde
Como disse Voltaire, o segredo de aborrecer é dizer tudo. Então vamos lá.

A
hagiografia lulística exalta o nordestino tangido pela seca, o menino
pobre, depois operário e sindicalista, que venceu todas as vicissitudes
do destino — sua mãe nasceu analfabeta; fosse rica, já viria à luz
citando Schopenhauer — até se tornar presidente da República e inventar o
Brasil. Antes dele, eram trevas. Em palanque, o homem já chegou a se
comparar a Cristo. O analfabetismo de nascimento de Dona Lindu é, então,
uma espécie de metáfora da virgindade de Maria. Dilma, cuja família era
rica, tem de ser santificada por outro caminho. Em tempos de instalação
de uma “Comissão da Verdade” — que será a verdade dos que perderam a
luta, mas ganharam a guerra de versões —,
é preciso ressuscitar a têmpera da heroína. Os grupos a que ela
pertenceu praticavam, na verdade, ações terroristas. E daí? Isso não vai
interessar à tal comissão.
Segundo se
informa, Dilma havia sido torturada durante 22 dias antes de ser
apresentada ao tribunal. Não vou pôr isso em dúvida. É coisa séria
demais! Noto apenas que alguém que se deixa torturar pela lógica se vê
obrigado a indagar por que os trogloditas que a seviciaram interromperam
o serviço sujo para dar curso ao aspecto legal e formal da prisão.
Adiante. O fato é que a imagem reúne um coquetel de clichês que serve à
hagiografia dilmista.
Vemos ali uma mocinha magriça, bonita, cabelo meio à la garçonne,
socialista por dentro (mas isso não se vê, só se sabe) e
existencialista por fora. Embora, consta, ela desse aula de marxismo
para a sua turma e cuidasse de parte das finanças da VAR-Palmares, há a
sugestão de uma intensa vida interior, mais para “A Náusea”, de
Sartre, do que para a literatura leninista. Olha para o vazio, com uma
firmeza triste. Atrás dela, fora do foco, militares devidamente fardados
consultam papéis. As mãos escondem o rosto. O contraste resta óbvio: na
narrativa fantasiosa, a vítima, de cara limpa, estaria enfrentando seus
algozes, que tentariam se esconder da história. A justiça, firme e
frágil, contra os brutamontes acovardados. Davi contra Golias. O Bem
contra o Mal. A democracia contra a ditadura. O título do livro não
deixa dúvida sobre o desfecho: “A Vida quer coragem”.
Em tempos de
“Comissão da Verdade”, essa é a grande falácia alimentada por esse
coquetel de clichês. Não eram democratas os militares que estavam no
poder. Tampouco eram democratas aqueles que tentavam derrubar os
militares do poder. Os poderosos de então tinham dado um golpe de
estado. Os atentados terroristas não buscavam derrubá-los para
instituir, então, um regime democrático no país. Os ditos
“revolucionários” queriam também uma ditadura, só que a socialista.
Morreram 424
pessoas combatendo o regime militar — algumas delas com armas na mão,
trocando tiros com as forças de segurança ou tentando articular as
guerrilhas. Outras foram assassinadas depois de rendidas pelo Estado, o
que é um absurdo. Os grupos de esquerda no Brasil, não obstante, embora
com um contingente muito menor e muito menos armados do que o estado
repressor, mataram 119! E, como é sabido, ninguém acende velas para
esses cadáveres porque não têm o pedigree esquerdista. Contam-se nos
dedos os “mortos pela ditadura” que não estavam efetivamente envolvidos
com a “luta” para derrubar o regime. Não estou justificando nada. Apenas
destaco, até em reconhecimento à sua própria coragem, que elas sabiam, a
exemplo de Dilma, o risco que corriam. Já a esmagadora maioria dos
indivíduos assassinados pelos grupos de esquerda — sim, também pelos
grupos de Dilma — eram pessoas que nada tinham a ver com a “luta”, nem
de um lado nem de outro: apenas estavam no lugar errado na hora errada:
comerciantes, transeuntes, taxistas, correntistas de banco, guardas…
Apelando à
pura lógica, isso é uma indicação do que teria acontecido se os
movimentos ditos revolucionários tivessem realmente conseguido se armar
para valer, atraindo milhares de brasileiros para a sua aventura. Teria
sido uma carnificina, como é, ou foi, a história do comunismo. Dada a
brutal diferença de aparato, fôssemos criar um “Índice de Letalidade”
das esquerdas armadas e das forças do regime, elas ganhariam de muito
longe. No campeonato na morte, as esquerdas são sempre invencíveis. É
inútil competir.
Esses são
fatos que a foto esconde. A luta dos democratas — não a dos partidários
de ditaduras — nos restituiu um regime de liberdades públicas e respeito
ao estado de direito. Felizmente, Dilma sobreviveu e é hoje umas das
beneficiárias, em certa medida, de sua própria derrota, já que é a
democracia que a conduziu ao posto máximo do país. Este garoto, no
entanto, não teve igual sorte.

Este homem também não teve a mesma sorte de Dilma.

Caminhando para a conclusão
Alguns bobalhões — os que me detestam, mas não vivem sem mim — enviaram-me vários links com a foto de Dilma, fazendo indagações mais ou menos como esta: “E aí? Quero ver o que você vai dizer agora”. Pois é… Já disse! Alguns preferem ficar com as ilusões que a imagem inspira. Eu prefiro revelar os fatos que ela esconde.
Alguns bobalhões — os que me detestam, mas não vivem sem mim — enviaram-me vários links com a foto de Dilma, fazendo indagações mais ou menos como esta: “E aí? Quero ver o que você vai dizer agora”. Pois é… Já disse! Alguns preferem ficar com as ilusões que a imagem inspira. Eu prefiro revelar os fatos que ela esconde.
A presidente
Dilma Rousseff — que se fez presidente justamente porque as utopias
daquela mocinha frágil, felizmente, não se cumpriram — assinou anteontem
a carta da tal Comunidade de Estados Latinoamericanos e Caribenhos
(Celac). Trata-se apenas de uma iniciativa para dar voz a delinqüentes
como Raúl Castro, Hugo Chávez, Rafael Correa, Daniel Ortega e Evo
Morales. A carta democrática não toca em eleições e imprensa livre
porque isso feriria as susceptibilidades desses “democratas
diferenciados”. Na cerimônia, o orelhudo Daniel Ortega identificou um
grande mal na América Latina: A IMPRENSA.
De certo
modo, Dilma assinou aquela carta com os olhos voltados para o passado. E
ela só é presidente porque os democratas lhe deram um futuro.
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